José Antônio Rosa Dias Bravo
- Por
- Marcos Teixeira
José Antônio Rosa Dias Bravo (1935 – 2003) Ainda com doze anos de idade desafiou o padre da escola a conferir os Dez Mandamentos no capítulo 20 do livro de Êxodo. O prior não gostou e começou o ciclo de expulsões das aulas de religião e moral católica. As boas notas e o facto de ser Prémio Nacional naquele ano evitaram a reprovação.
Acompanhou Luís Paiva na evangelização do Concelho de Sintra.
Pregou em mercearias e cafés, falou com pessoas, ofereceu folhetos e Bíblias.
Pagou o preço do pioneirismo e foi apedrejado por uma multidão enfurecida e instigada pelo pároco local.
Aos 16 anos pregou pela primeira vez numa igreja, na rua Maria Pia, em Lisboa. Foi abordado pela P.I.D.E. por distribuir folhetos evangelísticos. Os agentes da polícia de Salazar apreenderam tudo, mas no dia seguinte voltou a fazer o mesmo. Cumpriu o serviço militar durante cinco anos (com interrupções) e em 1967 foi destacado pelo exército português para a Guiné-Bissau como Capitão. Visitou crentes africanos e foi o primeiro militar crente a realizar um funeral evangélico, ajudando a desmistificar a ideia que o obscurantismo da época criara de que os "protestantes" eram antipatriotas.
Ancião na Igreja Evangélica (Casa de Oração) nas Amoreiras, em Lisboa, foi Presidente da Direção da Comunhão das Igrejas dos Irmãos em Portugal (CIIP) em dois mandatos sucessivos, de 1996 a 2000. Foi Presidente da Aliança Evangélica, da Sociedade Bíblica Portuguesa e membro de corpos gerentes de diversas organizações para-eclesiásticas.
A comunidade evangélica prestou-lhe diversas homenagens de reconhecimento pela obra que fez pela mesma, na defesa dos direitos dos cristãos perante as autoridades, sendo reconhecido por todos os quadrantes ideológicos, políticos, religiosos e da Magistratura, da qual fazia parte, pela sua elevação, respeito, pela fidelidade ao Senhor e à Sua Palavra, dando testemunho da sua fé em Cristo Jesus em todo o lugar e em todo o momento. Foi o primeiro magistrado português a abordar juridicamente a situação dos transexuais. Foi agraciado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz de Cristo.
Foi Magistrado Judicial e do Ministério Público, Vice Procurador Geral da República e atingiu a posição mais elevada na Magistratura Portuguesa, como Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal da Justiça em 1993.
O seu testemunho ficou registado no dia 21 de Janeiro de 2001, quando num almoço que reuniu cerca de duzentas e cinquenta pessoas, no Parque das Nações em Lisboa, a propósito dos altos serviços prestados à Nação enquanto Vice-Procurador-geral da República e à comunidade evangélica, proferiu as seguintes palavras:
"Foi aos doze anos de idade, na aprazível cidade de Portalegre, que José Régio cantou excelentemente nos seus poemas, que aceitei Jesus como meu Salvador.
Vindo da Igreja Católica, frequentando a catequese, entrei pela primeira vez numa Igreja Evangélica para ouvir um dos pioneiros da fé evangélica em Portugal - José Ilídio Freire.
Ao desafio final feito pelo pregador: fugir de Deus ou correr para Deus, respondi afirmativamente.
E eis-me então no início de uma caminhada, com imensos escolhos, mas também repleta de momentos felizes e bênçãos.
Eram tempos difíceis esses. Época de obscurantismo, de cerceamento das liberdades, pesava ser-se protestante num país de grande tradição católica. Por quê deixar a religião tradicional dos nossos pais? Porquê ser protestante? Interrogações que me eram feitas a cada passo e cujas respostas explicativas geravam um mundo de incompreensão.
Ainda na Universidade, conhecido mestre me convidava a deixar de ser protestante para poder triunfar.
Já formado, à procura de emprego, a primeira questão que me foi posta foi a de saber qual a religião que professava, sendo logo recusado, por protestante. Jovem, com sonhos, um familiar me aconselhou: 'Se vais por aí- a fé evangélica, não irás a lugar nenhum'.
Já Magistrado, pessoa de relevo me referia: 'Não fora protestante e eu o convidaria para este lugar'.
Apedrejado por distribuir literatura, que continha a mensagem evangélica, encontrando a polícia política pela mesma razão - o desafio era permanente.
Todavia, a minha confiança em Deus ficou firme. Sempre confiei que o Senhor dos tempos, dos espaços e da História, em Quem cria profundamente e de Quem tudo esperava, me guardaria em todas as circunstâncias.
A verdade hoje é que, olhando para o passado, acabo por concluir que até ao dia presente o meu Deus e Senhor não me deixou, nem desamparou. Sempre senti a presença de Deus nos meus caminhos, sempre a Sua Mão me guardou de todo o mal.
'Novas são em cada manhã as misericórdias do Senhor. Bom é para os que se atêm a Ele - está a palavra da Escritura Sagrada, em Lamentações de Jeremias 3:22, que sempre constituiu para mim fonte inspiradora de bênçãos, incentivo estimulante para prosseguir, motivo bastante para, na humildade do limitado, partir em demanda do impossível.
Novos empreendimentos se colocam no meu caminho.
Mas a fé e a esperança continuam ainda as mesmas no Deus que tudo dá e nunca falha.
Afinal, posso dizer com convicção: 'Vale a pena entregar a Deus a nossa vida! Só assim ela tem sentido e significado.
Só deste modo vale a pena viver!'"
Sim, o nosso mui Amado Irmão Dr. Dias Bravo provou pelas suas palavras e pela sua vida como valeu a pena entregar ao Senhor a sua vida. E o Senhor honrou-o nesta terra. Chamado à eternidade, para junto do Senhor, agora desfruta de todas as bem-aventuranças e de todas as riquezas celestiais guardadas para aqueles que servem ao Senhor de corpo, alma e espírito.
Resta-nos a alegria e a certeza de saber que um dia nos encontraremos com ele "na Casa do Pai", segundo as suas próprias palavras proferidas no Dia do Evangélico, realizado em 25 de Outubro de 2003, em Lisboa, onde mais uma vez a comunidade evangélica prestou-lhe o devido reconhecimento e gratidão pelo seu abnegado serviço e pelo seu exemplo como filho de Deus.
Os anais da história dos evangélicos em Portugal ficarão marcados pelo serviço abnegado do Irmão Dr. Dias Bravo. Agradecemos e louvamos ao Senhor por ter abençoado, dotado e usado este seu servo para a Honra do Seu Grandioso Nome. Magnificamos o nosso Deus por nos ter dado o privilégio de presenciar, entre nós, um herói da fé do nosso tempo. Apresentamos à Sua Esposa, D. Sara Bravo os nossos sentidos pêsames, orando para que o Senhor a continue a fortalecer e a cumule com as Suas Preciosas Bênçãos.
Joel Timóteo Ramos Pereira
Refrigério 95









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