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Os Pecados e as Tristezas da Cidade

pecados-da-cidade"Vendo [Jesus] a cidade, chorou sobre ela"  (Lc 19.41)

HÁ um fenômeno notável a ser visto em certas regiões 3 de nossa costa. Estranho dizer, ele prova, a despeito de expressões como terra estável e sólida, que não é a terra mas o mar que é o elemento estável. Num dia de verão quando não há onda nem vento brando para entufar a vela ou refrescar um rosto, você lança o barco ao mar. Indo além da marca mais baixa da maré, você se deita à toa na proa para surpreender o olhar prateado do peixe que passa, ou ficar vendo os movimentos de muitas criaturas curiosas que passam pela margem arenosa do mar. ou, rastejando-se para fora das tocas nas pedras, vagueiam seus labi­rintos complicados. Se o viajante fica surpreso por achar uma concha do alto-mar incrustada nos mármores do pico de uma montanha, quan­to você fica admirado ao ver debaixo de você uma vegetação estra­nha ao ambiente do fundo do mar! Debaixo do barco, submerso a muitos metros abaixo da superfície da maré mais baixa, nas grandes profundezas verdes e cristalinas, você não vê âncora enferrujando. nem restos mortais de algum náufrago desfeitos em pó, mas nos tocos eretos das árvores você descobre os vestígios de uma floresta reduzi­dos a pó, onde outrora gatos selvagens rondavam e pássaros do céu. cantando, faziam ninhos e alimentavam filhotes. Em contraparte aos trechos de nossa costa onde cavernas encavadas no mar, com lados polidos pelas ondas e o solo ainda polvilhado de conchas e areia, agora estão no alto acima do nível das marés de correntes mais fortes, ali jazem essas árvores mortas apodrecendo nas profundezas. Fenô­meno estranho, que não admite outra explicação senão esta: que o contorno da costa afundou abaixo do seu antigo nível.

Muitas de nossas cidades apresentam fenômeno tão melancólico aos olhos do filantropo, quanto outro fenômeno é interessante para o filósofo ou o geólogo. Nos aspectos econômicos, educacionais, morais e religiosos, certas partes desta cidade sustentam evidência palpável de uma correspondente precipitação. Não uma única casa, ou um bloco de casas, mas ruas inteiras, antigamente de ponta a ponta os domicílios da decência, indústria, riqueza, posição social e prática religiosa, foram engolfadas. Uma enxurrada de ignorância, miséria e pecado irrompe e ruge acima do topo de suas moradias mais altas. Nem os velhos tocos de uma floresta, ainda eretos abaixo das ondas do mar, indicam uma mudança maior, uma precipitação mais profunda que as relíquias da antiga grande/a c os memoriais comoventes da prática religiosa, que ainda permanecem em volta dessas habitações miseráveis como o cre­púsculo noturno nas colinas — como os vestígios de beleza de um cadáver. São cenas tristes o chão despido, as paredes enegrecidas e nuas. a atmosfera abafada e repugnante, a janela remendada e empoeirada pela qual um raio de sol, como a esperança, debilmente surrupia as crianças maltrapilhas, mortas de fome e de rostos tristes, o rufião, o montão de palha onde alguma mãe miserável, murmurando sonhos, cura-se dormindo da devassidão da noite passada, ou se deita sem mortalha e sem ataúde na cadaverização de .uma morte desespera­da. Freqüentemente olhamos para eles. E parecem profundamente tris­tes pelos divertimentos agitados e pela ilusão. Empolgados por vestígi­os de um afresco que ainda se mostra do gesso sujo e. quebrado, o mármore volumoso que se eleva acima da pedra de lareira fria e racha­da, uma cornija elaboradamente entalhada no alto para tiritar de frio a fim de ser posta no chão para servir de lenha, algumas flores ou frutos de estuque ainda pendentes do teto esmigalhado, a imaginação, des­pertada por estas coisas, evoca as cenas e atores de outros dias — quando a beleza, a elegância e a moda adornavam estes saguões soli­tários, copiosamente enegrecidos pela fuligem sobre tábuas gementes, e onde estas poucas brasas, juntadas do montão de pó da cidade, são fogueiras pouco hospitaleiras que debilmente ardem sem chama e ru-gem pela chaminé.

Mas aqui e ali essas casas dão testemunho de uma precipitação mais profunda, uma mudança ainda mais triste. Determinado por al­guma missão de misericórdia, você se coloca ao pé de uma escada úmida e imunda. Esta o conduz aos quartos abarrotados de uma mo­radia, onde — com a exceção de alguma velha viúva decente que viveu dias melhores, tendo toda a família morrido e os amigos ido embora, ainda se agarra a Deus e à fé nos momentos negros da ad­versidade — entre o naufrágio da fortuna desde os recantos da adega embaixo até aos sótãos debaixo da cumeeira do telhado, você não encontrará ninguém lendo a Bíblia ou mesmo com uma Bíblia para ler. Ai! De oração, de salmos matutinos e vespertinos, de paz terrena ou divina, pode-se dizer que o lugar que outrora os conhecia não os conhece mais. Porém, antes de você adentrar, levante os olhos para a pedra que está acima da entrada. Emudeça, fale de outros e melhores tempos. Esculpido em grego ou latim, ou na nossa língua mãe. você decifra textos como estes: "Paz seja nesta casa" (Lc 10.5); "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam" (Si 127.1); "Temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus'' (2 Co 5.1); "Temei a Deus" (1 Pe 2.17); ou este: "Ama o teu próximo". Como os restos reduzidos a pó de uma floresta que antiga­mente ressoava com a melodia dos pássaros, mas hoje não se ouve nada exceto a arremetida bravia ou o gemido melancólico do quebrar das ondas, estes vestígios de prática religiosa fornecem um padrão que nos permite medir o quanto afundou o estrato da sociedade nes­tas localidades sombrias.

Agora há forças na natureza que, levantando a crosta de nossa terra, podem converter o fundo do mar outra vez em floresta ou terra cultiváveis. Neste momento estas forças estão em operação ativa. Tra­balhando lentamente, contudo com poder prodigioso, estão levan­tando as costas da Suécia, no Velho Mundo, e do Chile, no Novo. E quem sabe estas agências subterrâneas, levantando nossas costas, ainda restabeleçam a vegetação a essas areias do fundo do mar e devolvam ao arado o seu solo, ao pinheiro balouçante a terra florestal. E assim em nossas orlas, redimidas da compressão do oceano em alguma era futura, colheitas maduras caiam ao cântico dos ceifeiros e florestas densas tombem pelo machado do lenhador. Não sabemos se isto acon­tecerá. Mas sei que há uma força em atuação neste mundo — leve, no entanto poderosa — comumente lenta em ação, mas sempre certa em seus resultados, a qual, mais energética que lavas vulcânicas, vapores comprimidos ou terremotos oscilantes, é adequado para levantar as massas mais afundadas da sociedade e restabelecer os mais baixos e mais longos distritos abandonados de nossas cidades ao nível anteri­or, para colocá-los na plataforma emparelhada de um cristianismo mais elevado.

Não podemos nos desesperar, contanto que não nos esqueçamos de que o poder de Deus, a sabedoria de Deus e a graça de Deus não têm nada a fazer dentro de nossas orlas que já não tenham feito antes. Nossas classes caídas são rudes e incultas, ignorantes e malignas? O mesmo eram nossos antepassados quando o Cristianismo aterrou nesta ilha. Ele tomou posse dela em nome de Jesus e conquistou selvagens corajosos, a quem os romanos nunca puderam subjugar, pelo poder suave, contudo poderoso, do Evangelho. “A mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem o seu ouvido, agravado, para não poder ouvir" (Is 59-1). Pouco importando o tempo que leve para evangelizar as massas de nossa cidade, por mais que vivamos antes do período em que "uma nação nascerá em um dia", toda prova de paciência que tenhamos de suportar, toda lágrima que tenhamos de derramar por nossas cidades, nossas lágrimas não são como as que Jesus chorou quando viu Jerusalém.

Não. Jerusalém foi selada para a ruína, sentenciada além de re­denção. Nossos irmãos e nossas cidades não o foram. Não precisa­mos chorar como aqueles que não têm esperança. Assim como num dia de verão vi o céu subitamente tão brilhante e a chuva com cada pingo sendo mudado pelos raios do sol num diamante incandescente, assim as esperanças se sobrepõem aos medos, e as promessas do Evangelho derramam a luz do sol sobre as tristezas piedosas. Pode­mos chorar; devemos chorar — choramos e trabalhamos, choramos e oramos. Mas que nossas lágrimas sejam sempre como as que Jesus derramou ao lado do sepulcro de Lázaro. Ele, enquanto chorava, or­denou aos espectadores que tirassem a pedra, e a seu comando o túmulo entrega seu morto, que havia quatro dias fora ali sepultado. Tais sejam nossas lágrimas. Sustentados por elas, todos trabalharemos muito melhor; e dentro de bem pouco tempo nosso Pai celeste abra­çará o mais miserável desses pobres miseráveis.

Dirigimos sua atenção para a extensão da intemperança; cuide­mos, em segundo lugar, dos efeitos deste vício.

Os espartanos, povo valente e, embora pagão, virtuoso em mui­tos aspectos, mantinham a intemperança na mais profunda aversão. Quando pais cristãos iniciam os filhos no vício da bebida, e — como vimos e ficamos espantados — os ensinam a levar o copo aos lábios infantis, copie quem possa, os antigos e sábios espartanos não são seu modelo. Eles não eram mais meticulosos em treinar a mocidade do seu país nos exercícios atléticos, e desde a meninice e quase dos seios maternos a "sofrer as aflições como bons soldados" de Esparta, do que criá-los nos hábitos da mais rígida e mais severa temperança. Formavam uma divisão regular da sua educação nacional. Por que não deveria ser da nossa? Seria bênção incalculável para a comunida­de. Faria incontavelmente mais em promover o conforto nacional, guardar o bem-estar das famílias c garantir o bem público, que outras divisões que, ainda que melhorem o paladar e sirvam de aprimora­mento à mente, não dão a verdadeira força e poder ao homem. Uma vez por ano esses gregos reuniam os escravos, e havendo-os compe­lido a beber até ficarem bêbados, eram lançados — todos sentindo vertigens, cambaleando, embriagados, brutalizados — numa grande arena, para que os jovens que enchiam as arquibancadas quando fossem para casa depois deste espetáculo de degradação evitassem a taça de vinho e cultivassem as virtudes da sobriedade. Terra suma­mente feliz, onde a embriaguez era vista apenas uma vez por ano, e formava somente um espetáculo anual. Ai de nós! Não temos neces­sidade de empregar tais meios injustificáveis mesmo para propósito tão bom! Não exigimos que se organize algum espetáculo anual para contar do púlpito, ou representar no palco de um teatro seus efeitos malditos, pavorosos e asquerosos. O leão está assolando diariamente nossas ruas. Ele continua "buscando a quem possa tragar".

De fato, uma vez por ano, quando os pátios da igreja ficam chei­os, nossa cidade pode apresentar um espetáculo que os tolos consi­deram com indiferença, mas os sábios com piedade e temor. Um homem pálido e desfigurado, portando o título de "reverendo", está no cancelo de sua igreja. Não ousando olhar para cima, ele se curva com a cabeça enterrada nas mãos, rubor nas faces, lábios trementes e um inferno vociferando e queimando dentro de si, enquanto pensa em casa, uma esposa com o coração partido e os pequeninos que dentro em pouco deixam aquela casa querida e doce para abrigar as cabeças inocentes onde melhor for, todos empobrecidos e desgraça­dos. "Ah, meu irmão", aqui! E: "Ah, meus irmãos", ali, aprendam: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação" (Mt 26.41). Veja o motivo de ansiedade de uma mãe e a labuta abnegada e parcimoniosa de um pai em educar o menino promissor e estudioso. Nesta escuri­dão profunda fixou-se para sempre uma brilhante carreira universitá­ria. Ai, que fim para o dia solene de ordenação, o dia luminoso de casamento e todos os sábados quando um povo afetuoso dependia dos lábios eloqüentes do pregador! Se este ofício sagrado, se a mani­pulação constante das coisas divinas, se as horas de estudo gastas com a Palavra de Deus, se as cenas freqüentes de morte com suas mais terríveis e ponderadas solenidades, se a ruína irredimível na qual a degradação do ofício santo mergulha consigo um homem e sua casa, se a hediondez indizível deste pecado naquele que manti­nha o posto de sentinela e fora incumbido com o cuidado das almas — se estas coisas não nos fortalecem e nos cercam contra os exces­sos, então, em nome de Deus: "Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia" (1 Co 10.12).

Ao deixar o pátio da igreja, onde ele viu espetáculo tão estranho e terrificante como homem de mente culta, homem de hábitos literá­rios, homem de posição honrada, homem de caráter sacro, sacrificar tudo — a causa da religião, o pão da sua família, os interesses dos filhos, a felicidade da esposa, seu caráter, sua alma — tudo, por esta indulgência vil. ninguém, depois de prova tão terrível do poder e domínio deste vício tirânico se surpreenderá de nada que encontre em nossas ruas. Contudo, se a alma de Paulo "se comovia em si mesma", emocionada até as profundezas mais recônditas quando viu a idolatria de Atenas, penso que aquele que pode andar deste castelo vizinho ao palácio mais distante sem gemer no espírito, deve ter um coração quase tão duro quanto o pavimento cm que anda. A degrada­ção da humanidade, a pobreza andrajosa, a miséria sórdida, a menini­ce sofredora, a infância definhada e agonizante, quanto isso obliterou todo o romance da cena e tornou a rua mais pitoresca da cristandade numa das mais dolorosas a ser percorrida. Eles chamam a rua em Jerusalém de Via Dolorosa, ao longo da qual a tradição diz que um Salvador sangrento carregou a cruz; e penso que nossa própria rua foi batizada nos sofrimentos de nome tão triste.

Com tantos indivíduos que têm no semblante a miséria estampa­da tão evidentemente quanto se tivessem sido marcados a ferro em brasa — a fome encarando desses olhos encovados, homens paralisa­dos pela bebida, mulheres cobertas de bolhas e inchadas pela bebida; crianças tristes e pálidas que definham numa morte lenta com as Ca­beças cansadas deitadas tão deploravelmente no ombro de uma mu­lher meio desumanizada — esta pobre criancinha que nunca sorri, sem sapato ou meia nos pés ulcerados, tiritando, rastejando, mancan­do com a garrafa na mão emagrecida para comprar com alguns troca­dos uma bebida, pobre criatura faminta, que desejaria gastar num pão, mas não ousa — a cena é como o rolo do profeta, "escrito por dentro e por fora; e nele se achavam escritas lamentações, e suspiros, e ais". Quanto nossos corações se apertaram ao ver um menino pobre e maltrapilho olhando cobiçosamente para dentro de uma janela a comida que ele não tem quem lhe dê e não se atreve tocar, para observá-lo enquanto ele erguia alternadamente os pés desnudos para que, não se congelassem no pavimento gelado. Ele passa fome em meio à abundância. Negligenciado entre pessoas que teriam mais pena de um cavalo velho doente ou de um cachorro moribundo, ele é um pária na terra. Das multidões que passam sem reparar nele a caminho de casas confortáveis, absortos em negócios ou prazer, não há nin­guém que o quer. Pobre miserável! Se ele conhecesse a Bíblia que ninguém o ensinou, com tanta determinação ele se plantaria diante de nós e nos barraria o caminho à igreja ou reunião de oração, dizen­do com olhos imploráveis e fixos em nós: "'A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai', é me alimentar, é vestir estes membros desnu­dos, é encher estas bochechas vazias, é lançar a luz do conhecimento nesta alma escurecida, é me salvar, é não ir à casa de Deus ou ao lugar de oração, sem primeiro vir comigo à nossa casa miserável, é Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tributações e guardar-se da corrupção do mundo"' (Tg 1.27).

Você pode testar a verdade destas declarações. Tudo que você tem de fazer é andar pelas ruas para comprová-las. Olhe ali! Naquele cadá­ver você vê o corpo morto e gelado de uma das melhores e mais religiosas mães que já tivemos o privilégio de conhecer. Ela teve um filho. Ele era o arrimo de sua viuvez — tão meigo, tão afetuoso, tão amoroso. Alguns são tirados antes do "mal por vir"; postos no colo da mãe terra, guardados debaixo do gramado verde do sepulcro; não ou­vem e não prestam atenção à tempestade que assola em cima. Não foi feliz seu destino. Ela viveu para ver a desgraça desse filho, e todas as promessas de sua mocidade destruídas e acabadas. Ele foi atraído para o vício da intemperança. De joelhos, ela pleiteava com ele. De joelhos, ela orava por ele. Quão misteriosos são os caminhos da Providência! Ela não viveu para vê-lo mudado; e com tais espinhos no travesseiro, com esses punhais fincados por tal mão em seu coração, ela não podia viver. Ela se afundou nesses pesares e morreu de coração partido. Nós lhe contamos isso. Com lágrimas amargas e ardentes, ele o admitiu e se culpou pela morte da mãe — confessando-se seu assassino. Esmagado pela tristeza e completamente só, ele foi ver o corpo. Sozinho, ao lado da mãe fria, morta e inacusável, ele se ajoelhou e chorou seu remorso terrível. Depois de um tempo, levantou-se. Infelizmente — que desgra­ça que uma garrafa de bebida tivesse sido deixado lá —, seus olhos caíram no antigo tentador. Você viu o ferro se aproximar do imã. Cha­me de feitiço, fascinação ou qualquer coisa ruim, demoníaca, mas as­sim como o ferro é atraído pelo imã, ou como um pássaro trêmulo, fascinado pelos olhos ardentes e a pele brilhante da serpente, entra em suas mandíbulas envenenadas e expandidas, assim ele foi atraído para a garrafa. Estranhando a demora, entraram no quarto — e agora na cama estão dois corpos — a mãe morta e seu filho morto e bêbado. Que visão! Que espetáculo humilhante e horrível! E que mudança da­queles tempos felizes em que a noite abaixou as cortinas pacíficas em volta do mesmo filho e de sua mãe — ele, um doce bebê, dormindo, como anjo, em seus braços amorosos! "Quanto ficou opaco o ouro, o ouro mais fino mudou!"

Ou olhe ali. A cama ao lado da qual você em outras visitas con­versou e orou com aquela que, na flor da mocidade, estava se defi­nhando num lento declínio — está vazia. Os vivos precisam dela; e assim sua exausta e cansada locatária de longo tempo acha-se agora estirada na morte, em cima de dois baús inclementes ao lado da jane­la. E enquanto você está ao lado do corpo e o contempla naquela face iluminada por um transitório raio de sol, você vê, juntamente com rastros alongados de beleza não comum, a tranqüilidade e a paz que foram seu último fim. Mas neste tempo quente, abafado e de verão, por que ela se encontra lá sem caixão? A bebida nos deixou fazer esse último ofício pela morta. Seu pai — que indigno o nome de pai —, quando a filha pleiteou com ele por sua alma, pleiteou com ele por sua mãe, pleiteou com ele por sua irmã pequena, tinha ficado ao lado do travesseiro agonizante para cruelmente condená-la. Ele deixou a pobre criança morta aos cuidados dos outros. Com o salário que retém para a bebida, ele recusa comprar a forma inanimada de um caixão e um sepulcro!

Mas que emoções os casos que lhes contei despertam? Ser iguala­do por muitos e ultrapassado por alguns em exemplos de repertório que eu poderia contar, que paixão podem, que paixão devem insti­gar, senão a indignação mais profunda? Nem eu, por mais que isso jorrasse impetuosamente, procuraria deter a inundação. Quanto mais profundamente flui, mais alto sobe, quanto mais forte se avoluma, tanto melhor. Eu não procuraria refreá-la, mas direcioná-la — direcioná-la não contra as vítimas, mas contra o vício.

Eu lhe peço: Não odeie o bêbedo; ele se odeia. Não o menospre­ze; ele não pode se rebaixar tanto em sua opinião como já está rebai­xado na própria. Seu ódio e desprezo podem prender a atenção, mas nunca lhe estraçalhará as correntes. Estenda-lhe a mão amiga para arrancá-lo do lodo. Com mãos fortes, quebre essa poncheira — tire as tentações que, embora as odeia, ele não pode resistir. Odeie, deteste, trema diante do pecado dele. E pelo amor da piedade, pelo amor de Deus, pelo amor de Cristo, pelo amor da humanidade, desperte-se à pergunta: "O que posso fazei?" Sem dar atenção aos outros, quer o sigam, quer não, corra até a praia, afaste o barco da praia, jogue-se nele c reme com força, como homem, para o naufrágio. Diga: "Eu não ficarei vendo meus semelhantes morrem sem nada fazer. Eles estão morrendo. Farei qualquer coisa para salvá-los. Que luxo não abandonarei? De que indulgência não me absterei? Que costumes, que algemas de velhos hábitos não quebrarei, para que estas mãos fiquem mais livres para arrancar o que está se afogando do fundo? Deus é a minha ajuda, a sua Palavra é a minha lei, o amor do seu Filho é o meu motivo governante, nunca equilibrarei uma indulgên­cia pobre e pessoal com o bem de meu país e o bem-estar da huma­nidade". Irmãos, a altura deste mal exige tais resoluções, tais esforços sublimes, santos, contínuos e abnegados.

Diante de Deus e dos homens, diante da Igreja e do mundo, eu impugno a intemperança. Eu a acuso do assassinato de inumeráveis almas. Neste país, abençoado pela independência, fartura, a Palavra de Deus e as liberdades da verdadeira religião, eu a imputo como a causa — qualquer que seja sua origem — de quase toda a pobreza, de quase todos os crimes, de quase toda a miséria, de quase toda a ignorância e de quase toda a irreligião que desgraça e aflige a terra. "Não deliro, ó potentíssimo Festo! Antes, digo palavras de verdade e de um são juízo" (At 26.25). Em minha opinião, acredito que estes estimulantes intoxicantes afundaram na perdição mais homens c mu­lheres do que os que encontraram o sepulcro no dilúvio que passou impetuosamente acima dos cimos mais altos e engolfou um mundo do qual somente oito pessoas foram salvas. Quando comparado a outros vícios, podemos dizer deste: "Saul feriu os seus milhares, po­rém Davi, os seus dez milhares" (1 Sm 18.7).

Por fim, considere que cura devemos aplicar a esse mal. O princi­pal e único remédio soberano para os males deste mundo é o Evan­gelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Eu creio nisso. Não hã homem mais convencido disso do que eu. Mas ele antes dificulta do que ajuda a causa da religião, que fecha os olhos para o fato de que, na cura das almas como na cura dos corpos, muitas coisas são importan­tes como auxiliares para o remédio, os quais não podem ser conside­rados corretamente como remédios. No dia em que ressuscitou. Lázaro devia sua vida a Cristo; mas os que naquele dia tiraram a pedra fize­ram bom serviço. Eles foram aliados e auxiliares. E para os tais na batalha que o Evangelho tem de empreender com este vício monstruoso, permitam-me concluir este discurso direcionando sua atenção. E eu pondero:

Em primeiro lugar: Que a legislatura pode prestar serviços essen­ciais a esta causa.

Esta é aliança entre a Igreja e o Estado com a qual ninguém pode disputar. Feliz de nosso país se por tal ajuda o Estado cumprisse para a Igreja — a mulher da profecia — esta visão apocalíptica: "E a ser­pente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar. E a terra ajudou a mulher; e a terra abriu a boca e tragou o rio que o dragão lançara da sua boca" (Ap 12.15,16).

Muitos indivíduos não sentem comiseração pelos sofrimentos da classe mais baixa. Eles não são desumanos, mas monopolizados pe­los próprios interesses ou, muito elevados em posição social, igno­ram as tentações e provações dessa gente. Portanto, falam ignorante­mente sobre eles e raras vezes mais do que quando repudiam todos os esforços da legislatura mediante atos restritivos do Parlamento para enfraquecer, se não abolir, este mal. Eles têm seus remédios. Uns pleiteiam melhores alojamentos e medidas sanitárias, o que também consideramos altamente valioso. Outros põem a fé na educação — um agente cuja importância para a geração ascendente é impossível estimar. Alguns parecem não ter confiança em nada, a não ser na pregação do Evangelho. Eles contam com um ou outro desses ou a influência combinada de todos, para a cura da embriaguez, repudian­do e protestando contra toda a interferência do legislativo. No entan­to, gostaria tanto quanto eles de ver o estrato mais pobre de nosso povo muito elevado no gosto, com mentes tão instruídas e corações tão santificados de modo que resistissem às tentações que de todos os lados os atacam. Porém milhares, dezenas de milhares, são incapa­zes de fazê-lo. Eles têm de ser ajudados com muletas até que possam andar. Eles têm de ser cercados com toda proteção possível até que sejam "arraigados e fundados no amor de Deus". No campo, já vi muitas vezes uma criancinha, com o rosto bronzeado pelo sol e madeixas douradas e compridas, doce como uma flor que ela pisou com o pé descalço, alegre como um passarinho que cantou do arbusto ou matagal, tangendo o gado para o curral. Com mão destemida, ela controla o líder mal-humorado do rebanho, pois com fronte armada e força colossal ele se intimida diante daquela imagem franzina de Deus. Alguns dias atrás, tive uma visão diferente — essa criança, com a cabeça pendente, sem música na voz, sem rubor na face, senão a da vergonha, levando para casa um pai bêbedo ao longo da rua pública. O homem precisava ser conduzido, guiado, defendido. E em condi­ção dificilmente menos desesperadora, grandes massas de nosso povo afundaram. Nem preciso perguntar se eles bebem.

Olhe essas circunstâncias infelizes e dificílimas. Muitos deles nas­cem com a propensão ao vício. Eles o sugam com o leite materno, porque é fato bem comprovado que outras coisas são hereditárias, além de câncer, tuberculose e outras doenças. O pai bêbado transmi­te aos filhos a predisposição a esta indulgência fatal. A atmosfera poluída que muitos respiram, o trabalho duro pelo qual muitos ga­nham o pão, produzem uma prostração que busca nos estimulantes algo que revigore o sistema, e nada será excluído do uso por prospecto de perigo ou experiência de reação correspondente. Com nos­sos gostos melhorados, nossos livros, nossas recreações, nossos con­fortos domésticos, não temos idéia adequada das tentações às quais os pobres são expostos e das quais é a mais verdadeira generosidade protegê-los. Eles têm frio e o copo é calor. Eles têm fome e a bebida é sua comida. Eles são miseráveis e há riso no que flui do copo. Eles estão afundados na própria estima, e a poncheira ou a garrafa envol­ve o bêbedo com um halo luminoso e colorido de auto-respeito, e, contanto que as emanações estejam no cérebro, ele se sente homem. "Para que bebam, e se esqueçam da sua pobreza, e do seu trabalho não se lembrem mais" (Pv 31.7).

Retirar a tentação nem sempre cura o bêbedo. Mas certamente restringirá o crescimento de sua classe e impedirá que muitos outros aprendam seu vício até que homens sangüíneos possam nutrir a ben­dita esperança de que, como monstros de época anterior que agora jazem enterrados em pedras, os bêbados sejam numerados entre as raças extintas, classificados com as serpentes aladas e as bestas gigan­tescas que outrora eram os habitantes de nosso globo.

O assunto diante de nós foi eminentemente calculado para ilus­trar a profunda observação de alguém que estava bem familiarizado com as tentações e circunstâncias dos pobres. Ele disse: "É de justiça, não de caridade, que os pobres mais precisam". E tudo o que pedi­mos é que você lhes seja tão gentil quanto é aos ricos; que se precate contra uma classe tão cuidadosamente quanto se precata contra outra das tentações peculiares à sua sorte. Sinto em dizer — mas a verdade e os interesses daqueles que, por mais desgraçados e degradados, são ossos de nossos ossos e carne de nossa carne, exigem que eu diga — que isto não é feito. Os pobres, diz Amos, são vendidos por um par de sapatos, e conosco eles são vendidos para poupar a riqueza dos ricos. Sobre isso não faço acusação do que não estou preparado para provar. Por exemplo: certas medidas foram propostas no Parlamento com vistas a promover o conforto e melhorar os hábitos morais das pessoas comuns. Admitiu-se que tais pessoas, introduzindo vinho fra­co francês e do Reno em vez de aguardentes e bebidas alcoólicas fortemente intoxicantes, seriam atendidas com resultados mais felizes c desejáveis. Contudo, estas medidas foram rejeitadas porque sua adoção, embora salvasse as pessoas, prejudicaria a renda. Como se não houvesse dinheiro o bastante nos bolsos dos ricos por meio de outros impostos para saldar as dívidas da nação e sustentar a honra da Coroa. Que diferença o tom da moral, mesmo na China! Os minis­tros daquele país provaram ao soberano que ele evitaria todo o perigo de guerra com a Inglaterra, além de aumentar imensamente a renda, se consentisse legalizar o comércio do ópio. Ele recusou, recu­sou firmemente, recusou nobremente. E foi dia glorioso para a Ingla­terra, dia feliz para dez mil casas miseráveis — um dia para fogueiras, saudações de canhões, sinos festivos, procissões com bandeiras e ações de graças santas, que viu nossa amada rainha levantar-se do trono e no nome desta grande nação fazer na Câmara dos Lordes e Comuns o discurso memorável em favor daquele monarca pagão: "Eu nunca consentirei elevar minha renda com a ruína e vício de meu povo". Que Deus sature nossa terra com tal espírito! "Vem, Senhor Jesus. Vem depressa".

Em segundo lugar: Que o exemplo de se abster de todos os lico­res intoxicantes grandemente ajudaria na cura deste mal.

Nenhum princípio está mais claramente revelado na Palavra de Deus e nenhum posto em ação torna o homem mais semelhante a Cristo do que a abnegação. "Se o manjar escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize" (1 Co 8.13). Este é o princípio da temperança, como o advogo. Não concordo com aqueles que, em sua ânsia pelo bem, tentam provar muito e condenam como positivamente pecador o uso moderado de estimulantes. Mas ainda menos simpatia tenho por aqueles que ou­sam chamar a Jesus Cristo para dar seu semblante santo às suas luxu­osas mesas. É chocante ouvir os homens tentarem provar pela Palavra de Deus a permissividade de tal vício — encher a taça de vinho e esvaziar o copo.

Eu era capaz de usar sem abuso. Mas vendo a que abusos mons­truosos a coisa tinha crescido, vendo a que multiplicidade de casos o uso foi seguido pelo abuso e vendo como o exemplo das classes altas, a prática dos ministros e o hábito dos membros da igreja foram usados para proteger e sancionar indulgências tão freqüentemente carregadas de excesso, percebi que este é caso para a advertência do apóstolo Paulo: "Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos" (1 Co 8.9).

Nesta revolução moral em nossos hábitos nacionais, nesta maior de todas as reformas, todos podem se engajar. Mulheres e crianças, como também homens, podem tomar parte para que sigamos em direção à meta. E atingível, se tão-somente tentarmos. É promissora, se apenas dermos ao assunto a justa consideração. Por que o poder do Cristianismo, mediante seus argumentos poderosos do amor e da negação do "eu", não levaria ao desuso de estimulantes intoxicantes, e assim alcançaria o que o islamismo e o hinduísmo alcançaram? A cruz tem de empalidecer diante do Crescente Fértil?1 A religião divina de Jesus, com esse Deus-Homem no madeiro por insígnia invencível, se envergonha diante de tais rivais e se acha incapaz de realizar o que as falsas crenças fizeram? Não nos diga que não pode ser feito. Pode ser sim. Foi feito — feito pelos inimigos da cruz de Cristo, feito pelos seguidores de um impostor, feito por adoradores de madeira e pedra. "A sua rocha não é como a nossa Rocha" (Dt 32.31). Se é verdade, e não pode ser contradito, eu com certeza exijo de todo homem que tenha fé em Deus e ame a Jesus, e está disposto a viver pelo benefício da humanidade, que reflita sincera, plena e devotamente sobre este assunto. Mas, qualquer que seja o meio, quaisquer que sejam as ar­mas que você julgue melhor empregar, quando as trombetas estão retumbando em Sião e o alarme está soando e ecoando no monte santo de Deus, venha, venha ajudar o Senhor contra o poderoso, junte-se ao padrão, lance-se ao grosso da batalha e morra em ativida­de lutando pela causa de Jesus. Assim, "para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho" (Fp 1.21).

 

thomas-guthrie

 

 

Prateleira

Este é o homem a quem olharei...

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"Treme da minha palavra...", Isaías 66:1-2

Como isto te parece? O Altíssimo, busca atentamente algo nos homens, algo cujo valor transcende as iguarias dos príncipes desta terra.